• Imagen 1 STEVE JOBS, AS COISAS QUE NINGUÉM DIZ
    Quão honestamente a sua vida é avaliada.
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Os cevadores de trolls



No livro “You Are Not a Gadget” (“Você não é um aplicativo”, editora Saraiva), lançado ano passado, o americano Jaron Lanier, um dos pioneiros da realidade virtual, adverte e lamenta que a internet esteja servindo para libertar o “troll interior” que todos carregamos.

Quando um colunista escreve que homofobia não é crime, não é porque ele respeita o direito de alguém não gostar de homossexuais. O que ele quer é angariar notoriedade mesmo que isso custe incentivar o preconceito contra os gays

Nós, seres cordatos e decentes na vida em sociedade, estaríamos sendo tentados pelo anonimato da rede a confessar em blogs e fóruns nossos pensamentos e preconceitos mais sórdidos. Uma espécie de Médico e o Monstro virtual cuja poção capaz de liberar o lado escuro é a certeza de que ninguém saberá que somos capazes de pensar aquelas coisas –além, claro, de evitar processos judiciais.

Lanier defende o fim dos comentários apócrifos, sem a identidade de seus autores, mas antes de tudo dá alguns conselhos às pessoas em geral para resistirem à sedução da trollagem. A primeira e mais importante delas é: nunca poste anonimamente a não ser que, se você se identificar, corra algum perigo. É um conselho muito bacana, mas ele esqueceu ou não quis se dirigir também aos trolls que estão detrás das telas destes trollzinhos, com colunas opinativas impressas ou em vídeo, instigando estes pensamentos e preconceitos sórdidos. Cevando os trolls interiores.

Foi-se o tempo em que recebíamos correntes de e-mails com artigos edificantes ou engraçados. Era até chato, eu sei, mas já comecei a sentir saudade, juro. Sobretudo de quando a leitura de uma coluna mexia comigo, quando era capaz de me fazer concordar, discordar ou até me fazer mudar de opinião sobre um assunto. Felizmente ainda há exceções, mas hoje alguns colunistas só conseguem me causar indignação. O que no passado era conhecido como “polemista” se transformou num criador de casos banal, tipo aquele bêbado do bar da esquina que provoca todo mundo. Na vida real, o bêbado iria causar repulsa nos frequentadores do boteco. No mundo virtual, arrasta um monte de gente atrás dele, rindo e replicando suas asneiras.

O cevador de troll é mais perigoso do que o troll, porque, alimentando-os, os multiplica. Quando um colunista escreve que homofobia não é crime, não é porque ele respeita o direito de alguém não gostar de homossexuais. O que ele quer é angariar notoriedade mesmo que isso custe incentivar o preconceito contra os gays e consequentemente os trolls da rede, que são atraídos por estes textos que nem moscas. Quando um articulista chama uma senadora de “primeira-dama das estrebarias” está, sim, chamando: ti, ti, ti, venham, trollzinhos, que aqui tem alpiste.

Quando alguém com meia página num jornal diz que detesta classes emergentes, dá razão ao troll mais mesquinho e o incentiva a ir em frente. Come, trollzinho, pra ficar gordinho. Saciado, o troll deve pensar: “Nossa, é legal pensar desse jeito. Se eu continuar assim, um dia vou conseguir trabalho num jornal ou revista importante”. Ou: “O segredo do sucesso é sempre dizer o que se pensa, mesmo que isso seja nojento”. Nham, nham. Arf.

Esqueça todas aquelas condenações que leu na imprensa aos internautas capazes de tripudiar sobre a doença de um ex-presidente. Elas não passam de uma tentativa de maquiar com as tintas da civilidade o fato de que estas criaturas horrendas possuem um criador. Alguém que lhes dá de comer na boquinha, que os estimula a crescer, a se encorajar, a não se reprimir. Os cevadores de trolls estão todos bem empregados, não vai lhes faltar emprego. Alimentar monstrinhos atrai leitores. E eleitores.


Cynara Menezes - CartaCapital

Criador genial, empresário comum


Não há a menor possibilidade de se negar as qualidades de Steve Jobs como criador no mundo da tecnologia. Ele foi o principal nome do grupo de jovens empreendedores do Vale do Silício, na Califórnia, que, a partir dos anos 1970, transformaram o computador de um monstrengo gigantesco a um útil aparelho que cada vez mais todos temos em casa e no bolso e sem os quais não conseguimos mais viver. Se eu escrevo este texto em um computador e você o lê em outro, é porque um dia pessoas como Jobs assim o criaram. Se existem os smartphones e tablets, é pela mesma razão.

Ressalte-se que o seu faro para a auto-publicidade era muitíssimo acima da média ao dar poucas entrevistas, se apresentar sempre com o mesmo tipo de roupa e fazer apresentações dos produtos da Apple de maneira midiática. Quase tão importante quanto o produto é a maneira como o público o vai conhecer, é outra lição que ele deixou.

São exatamente por estes motivos que existe uma idolatria generalizada por Steve Jobs, e talvez seja inédito na história da humanidade que a morte de um engenheiro e empresário tenha o mesmo impacto que a de um pop star. E é aí que mora o problema: o técnico Jobs, o criador de softwares e hardwares, era um gênio. O empresário, apenas mais um com as mesmas estratégias nada saudáveis que tantos outros empresários têm.

Mítico nos produtos que criou, o dono da Apple não foi maior que a média na preocupação com a linha de montagem deles. Por Fernando Vives. Foto: AFP

Quem produz os aparelhos que a Apple desenvolve é a fábrica taiwanesa Foxconn, que virou notícia mundial por conta dos altos índices de suicídio entre funcionários no ano passado. Entre janeiro e maio de 2010, 16 empregados da fábrica tiraram a própria vida, a maioria dos quais se atirando do alto da sede da empresa. Como boa parte das fábricas da China e de Taiwan, a Foxxconn, segundo amplamente veiculado pela imprensa, tem uma gestão considerada militarizada, na qual os funcionários da linha de produção trabalham demais e ganham pouco, normalmente em condições aviltantes. A Apple, assim como Dell, Nokia e Sony, que também terceirizam a produção com a Foxxcom, seleciona muito imprudentemente as empresas com as quais trabalha.

“A Apple só faz exatamente o que as outras empresas fazem”, é o argumento mais comum de quem defende a prática da empresa criada por Jobs. É aí que mora o problema: se um sujeito cria produtos de qualidade indiscutível que dominam o mercado, por que não exigir que a confecção de seus produtos seja também feita em alto nível – o que, no caso, seria apenas condições dignas de trabalho?

A genialidade que sobrou a Steve Jobs para criar produtos e utilizar o marketing para alçá-lo a um status cool não parece ter se manifestado na forma de preocupação sobre como esse produto era produzido. A revolução da técnica não virou uma evolução do sistema de produção capitalista do qual tanto tirou proveito. Talvez esta dicotomia de Jobs seja o grande problema do capitalismo atual: fabricar produtos incríveis a um lucro máximo é a prioridade absoluta. Jobs é hoje um sinônimo de quem venceu na vida. Aos não-gênios que apertam parafusos, resta-lhes o suor.


Fernando Vives -
Carta Capital

CartaCapital responde à vice-procuradora do TRE

A Editora Confiança, que edita a revista CartaCapital, recebeu na tarde desta quinta-feira 16 um ofício assinado pela Sra. Sandra Cureau, Vice-Procuradora Geral Eleitoral.

Nele somos requisitados a apresentar no prazo de 5 dias as cópias de todos os contratos publicitários que assinamos com o governo federal nos anos de 2009 e 2010.

Nos únicos dois parágrafos do ofício – leia o fac-simile no slide show deste site – não há qualquer referência às motivações que ensejaram a solicitação, nem o nome dos autores do pedido junto ao TRE.

da CartaCapital
ss
Sandra Cureau, Vice-Procuradora Geral Eleitoral intima CartaCapital

Abaixo, os leitores têm o contéudo integral de nossa resposta ao referido ofício, que será protocolado naquele Tribunal.

Agradecemos desde já as dezenas de cartas e moções de solidariedades que recebemos e informamos aos nossos leitores que na edição de CartaCapital que vai às bancas nesta sexta-feira 24, publicaremos uma matéria sobre o assunto.

Leia aqui a reposta ao TRE:

2leep.com
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