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Questão de civismo

Não vou nem perder meu tempo discutindo o que o presidente da OAB/SP, Flávio D´Urso, acha ou deixa de achar sobre as peças que o artista Gil Vicente vai expor na Bienal que abre no próximo sábado, no Ibirapuera, em São Paulo.

Barbara Gancia

O faniquito oportunista do presidente da OAB foi dirigido a um público específico, ao pessoal que ele queria juntar para formar o movimento Cansei -lembra?-, mas que depois viajou para Campos do Jordão ou, sei lá, para Paris e ninguém falou mais nisso.

Que D´Urso ache impróprias imagens mostrando o artista pronto para executar figuras públicas como a rainha Elizabeth, FHC e Lula ou diga que a obra incita a violência não significa absolutamente nada, tem efeito prático zero, não vai dar em nada, não traduz o desejo da sociedade, revela apenas a ignorância e a falta de compreensão de uma pessoa que não estudou o suficiente para se manifestar sobre arte.

O problema é que revela também a ignorância de quem que não sabe chongas sobre direitos civis ou seja, em ultima análise, sobre a Constituição. E essa pessoa por acaso vir a ser o presidente da OAB de São Paulo, não tenho dúvida disso, é de sair correndo arrancando as vestes e gritando.

Está certo que ninguém mais que tenha uma certa estatura no mundo jurídico se interessa pela presidência da OAB. O cargo perdeu importância, foi superado. Hoje em dia, só quem possui ambição política almeja ocupar os sapatos do senhor D´Urso.

Mas, vamos e venhamos, em nome daquela OAB que lutou contra o regime de exceção, será que algum bacharel de boa índole não pode fazer o favor de se candidatar a fim de fazer chispar esse camarada de onde está?

Flávio D`Urso organizador do movimento "CANSEI" gosta é de CENSURA

A arte criminosa




Na Bienal, Gil Vicente se retrata matando líderes políticos. A OAB acusa o desenhista de fazer apologia do crime. Até onde pode ir o artista?


O artista pernambucano Gil Vicente virou a vedete da 29ª Bienal de São Paulo antes mesmo de o evento abrir para o público. É uma série de desenhos em que o próprio artista se autorretrata assassinando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, o papa Bento XVI, a rainha Elizabeth II da Inglaterra e o presidente George W. Bush, entre outros líderes. As imagens podem parecer chocantes para muita gente. Por esse motivo, o presidente da Ordem dos Advogados do Brasil de São Paulo (OAB-SP), Luiz Flávio D’Urso, solicitou em nota que os as obras de Gil Vicente fossem retiradas da mostra da Bienal porque elas fazem “apologia ao crime” (sic). Quem tem razão nesse caso? O artista em expressar graficamente sua revolta contra os líderes mundiais, assassinando-os simbolicamente, ou o jurista indignado com a incitação ao crime manifestada na série de desenhos? Na minha opinião, os dois têm lá suas razões. O artista, ao chamar atenção sobre si próprio com uma obra que ele considera de teor “crítico”. E o jurista, que deseja também ele promover as artes, mesmo que seja falando mal. Ambos manifestam comovente ingenuidade. Os dois, mesmo em polos opostos, pensam que a arte ainda tem um poder de afetar a realidade. Pobre arte. Ela já não pode nada, virou refém do mercado e tem pouco ou nada a dizer. A controvérsia pelo menos ajuda a arte a sair da tumba para fazer algum barulho.

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